“Colocar IA em tudo” virou quase um reflexo. Mas nem todo reflexo é racional.
Estamos entrando em uma fase que lembra muito algo que a engenharia já conhece bem: o overengineering. Só que agora, aplicado à inteligência artificial.
Eu chamo isso de OverAI.
O que é OverAI
OverAI não é sobre usar IA.
É sobre o uso excessivo, performático e indiscriminado de LLMs e GenAI — muitas vezes sem necessidade técnica, sem retorno claro e, principalmente, sem sustentabilidade.
Não é uma crítica à IA. É uma crítica à forma como estamos adotando IA.
O paralelo com overengineering
A analogia não é estética. Ela é estrutural.
Overengineering:
- usar arquitetura complexa sem necessidade
- adicionar abstrações sem retorno
- criar sistemas maiores que o problema
OverAI:
- adicionar LLMs onde software determinístico resolve
- usar agentes onde automação simples basta
- transformar IA em requisito estético
- medir adoção em vez de resultado
Aqui acontece uma inversão clássica:
a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser fim.
Tokenmaxxing: a caricatura do problema
O fenômeno de tokenmaxxing expõe isso de forma quase didática.
Empresas começaram a:
- criar rankings internos baseados em uso de tokens
- tratar consumo como proxy de produtividade
- usar IA como marcador de status organizacional
Isso é um caso direto da Lei de Goodhart:
“Quando uma métrica vira meta, ela deixa de ser uma boa métrica.”
Tokens medem consumo computacional. Tokens não medem:
- qualidade
- impacto
- clareza
- valor gerado
- resultado de negócio
É uma confusão clássica entre input e output.
O incentivo econômico por trás
Esse comportamento não surge por acaso.
A indústria de IA tem incentivos claros para aumentar consumo, aumentar dependência e aumentar throughput computacional.
Quanto mais prompts, agentes, contexto, inferência e automação, maior:
- consumo de GPU
- receita de cloud
- consumo de tokens
Existe uma força de mercado empurrando a narrativa de que:
mais IA = melhor.
Mesmo quando isso ainda não se sustenta economicamente.
IA como identidade cultural
O problema não é só técnico. É cultural.
IA deixou de ser apenas ferramenta e passou a ser:
- símbolo de status
- marcador de pertencimento
- estética tecnológica
- performance social
Isso não é novo. Já vimos isso com hustle culture, biohacking e startup grind.
Agora temos:
AI grind culture.
OverAI como fase do hype cycle
Toda tecnologia passa por um ciclo previsível:
- descoberta
- hype
- adoção irracional
- frustração
- maturidade
Já vimos isso com internet, microservices, blockchain e Kubernetes. IA está seguindo o mesmo padrão.
Não é sobre “estourar a bolha”
É mais sutil que isso.
A questão não é que a IA vai “falhar”. É que o mercado está superestimando onde ela realmente gera valor.
O mais provável é:
- consolidação
- redução de exageros
- abandono de casos ruins
- permanência dos casos que se pagam
Exatamente como aconteceu com outras ondas tecnológicas.
O problema organizacional
O ponto mais crítico talvez seja este:
estamos começando a medir proximidade com IA, e não valor entregue.
Isso gera teatro operacional, métricas vazias, consumo performático e complexidade artificial. E engenharia sofre — muito — quando isso acontece.
Nem tudo é OverAI
É importante não cair no extremo oposto.
Existem áreas onde LLMs já provaram valor estrutural:
- copilots
- busca semântica
- automação documental
- suporte operacional
- análise de dados
- coding assistance
O problema não é a IA. É o uso desproporcional e indiscriminado dela.
Conclusão
OverAI não é sobre rejeitar IA. É sobre recusar adoção irracional — e talvez o sinal mais claro disso seja simples:
quando começamos a medir consumo em vez de resultado.
IA vai continuar. Mas o excesso, não.